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Em novo debate sobre trans no esporte, Mitidieri defende mais estudos e presença do COI

25 Junho

Há três semanas, a Comissão do Esporte da Câmara dos Deputados promoveu um debate que está em muita evidência no esporte: a presença de atletas transgêneros. O tema, por ser denso, ganhou, nesta terça-feira (25), mais espaço para o debate. Nesta segunda edição da discussão sobre o tema, as exposições ganharam a experiência de dois nomes emblemáticos quando se trata do assunto: a jogadora Tifanny Abreu, atleta trans, e a ex-atleta Ana Paula Henkel, ambas do vôlei, e com opiniões opostas. 

Para o deputado federal Fábio Mitidieri (PSD), presidente da Comissão do Esporte, o debate de hoje mostrou que o tema ainda não está maduro, e que ainda haverá muita conversa sobre o assunto. “Repito aqui que essa Casa teve a coragem de trazer o debate. Muita gente questiona se é certo ou não, se é inclusivo ou não, mas aqui queremos falar sobre o lado esportivo, para saber se mulheres trans, principalmente, têm vantagem. Porém, vimos aqui que as equipes de pesquisa precisam ir além nos estudos, pegar mais casos, terem uma conclusão objetiva. E o COI (Comitê Olímpico Internacional) também tem que estar mais ativo. Não basta dar a diretriz e deixar como resolvido”, analisou Mitidieri.

O deputado ouviu atentamente às exposições de Tifanny e Ana Paula, e explicou a razão de colocar as duas frente à frente no debate. “Atualmente são as duas pessoas que mais representam essa troca de ideias. Tifanny é mulher trans e joga de acordo com as diretrizes das federações nacionais e internacionais, e sabe como é a vida de um transgênero dentro e fora das quadras. E Ana Paula tem a experiência de dentro das quadras e usa argumentos sólidos para defender que não haja atletas trans competindo, por entender que levam vantagem”, explicou.

A opinião das duas é de relevância pelo que representam no voleibol. Tifanny, de 34 anos, jogou até os 30 anos como Rodrigo. Somente com essa idade resolveu fazer a transição de gênero e, desde 2017, atua na Superliga Feminina como jogadora acima da média. A atleta defende que não leva vantagem. “Tenho mais de 30 anos, e todos sabemos que o corpo vai ficando mais fraco. Por exemplo, tem teste de força e velocidade do meu clube que fico entre as três últimas da equipe”, disse. “E todos os argumentos que vejo hoje são comparando mulheres com homens. O certo é comparar mulheres com mulheres trans. Aí sim teríamos informação para falar se há vantagem”, completou.

Por sua vez, Ana Paula demonstrou casos de mulheres e adolescentes trans que são muito superiores às rivais, como a norte-americana Cece Telfer, que competiu entre os homens até 2017 e era mediano. A partir de 2019, passou a competir entre as mulheres e se tornou campeã universitária em provas de velocidade no atletismo. “É claro isso. E vemos que mesmo antes da puberdade, meninos são mais rápidos que as meninas nas provas de atletismo”, justificou a ex-atleta.

A ex-jogadora deixou claro que não luta contra a Tifanny ou outras atletas trans, e, sim, contra uma diretriz do COI. “O COI se baseou em um estudo com quatro atletas apenas, e sem ouvir o contraditório. Sei que a Tifanny está dentro do que foi estipulado, e por isso defendo que não estou contra ela”, disse. Tifanny também foi clara ao afirmar que não faz nada fora das regras, e que passa por todos os testes que precisa. “O COI disse que precisava estar abaixo dos 10 nmol/L por um ano, e eu estou. Querem baixar para 5, e eu também estarei. Se a regra mudar e eu não me enquadrar mais, vou ter que parar de jogar. É o jeito”, concluiu.

Além das duas, a audiência ainda teve a presença de Altair Moraes, deputado estadual de São Paulo e autor de projeto que define o sexo biológico como fator para as competições; Marcelo Franklin, advogado esportivo especializado em doping; Leonardo Lima, estudioso da área de autopercepção corporal de trans masculinos praticantes de musculação; Alícia Krüger, farmacêutica doutoranda em endocrinologia clínica pela Escola Paulista de Medicina; Gustavo Cavalcanti, farmacêutico e pai da patinadora trans Maria Joaquina Cavalcanti; e Magnus Regios, médico e coordenador do ambulatório do Núcleo de Assistência Multiprofissional à Pessoa Trans da Unifesp. Também participaram Érica Malunguinho, deputada estadual de São Paulo, e o público presente na audiência, que pôde fazer perguntas aos deputados e expositores.

Com pontos prós e contras expostos na Comissão, Mitidieri ainda defendeu que o assunto não pare por aqui. “Tudo o que discutimos é para compreender melhor a situação. Acredito também que não podemos resolver por Projeto de Lei. Esse não é um assunto que se resolve com uma canetada, ou já seria resolvido. E também acho que o COI pode ser mais atuante”, resumiu.

Foto: Cláudio Araújo / PSD

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